Não é a temperatura, é a umidade na verdade

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O calor extremo pode não ser apenas desconfortável, mas mortal. Espera-se que as ondas de calor se tornem mais frequentes, mais severas e mais longas com as mudanças climáticas. E as projeções de um futuro stress térmico que se baseiam apenas na temperatura subestimam o problema, de acordo com dois estudos recentes.

A razão é que a umidade – a quantidade de umidade no ar – desempenha um papel importante em quão quente uma determinada temperatura é sentida. O ar úmido que é saturado com o vapor de água interfere na habilidade do corpo de se esfriar pelo suor. Foram feitas muito poucas pesquisas para analisar como a umidade irá afetar eventos de calor extremo com a mudança climática, mas dois novos estudos sugeriram que a umidade poderia piorar os efeitos das futuras ondas de calor.

“As condições que estamos falando basicamente nunca ocorreram – pessoas na maioria dos lugares nunca passaram por elas,” dise Ethan Coffel, um estudante graduado do observatório da terra Lamont-Doherty da Universidade de Columbia e autor principal de um dos estudos, em uma press release. “Mas eles são projetados para ocorrer perto do final do século.”

Uma maneira de medir o efeito combinado de temperatura e umidade é conhecido como índice de calor. Em um estudo publicado em 1º de janeiro pela Nature Climate Change, pesquisadores utilizaram dados de temperatura, vento e umidade de modelos climáticos para calcular valores futuros de índices de calor [1].

Eles descobriram que à medida que o mundo se torna mais quente, o índice de calor aumenta mais que a temperatura do ar. Em outras palavras, a sensação de calor aumenta mais rápido que o aumento do mercúrio nos termômetros. Isso significa que somente a análise da temperatura subestima o quanto as pessoas sofrerão de calor extremo à medida que a mudança climática ocorre.

A análise mostra que o aumento dos índices de calor irá particularmente ampliar os efeitos das ondas de calor nos trópicos, particularmente no Sudeste Asiático.

Caso as emissões de carbono sejam altas ou moderadas, a lacuna entre o índice de calor e a temperatura do ar aumentará no curso do século 21. Mas, se pudermos reduzir drasticamente as emissões de carbono nas próximas décadas, o índice de calor não representará um problema tão grande, descobriram os pesquisadores.

Um segundo estudo, publicado em 22 de dezembro pela Environmental Research Letters, utilizou uma medida diferente conhecida como a temperatura de bulbo úmido para acessar os efeitos combinados de temperatura e umidade [2].

A abordagem geral destes pesquisadores foi similar ao do primeiro grupo: eles utilizaram dados de temperatura do ar, umidade e pressão da superfície de modelos climáticos globais para projetar futuras temperaturas ao redor do globo. E suas conclusões são ainda mais estreitas.

Eles descobriram que até 2080, as temperaturas máximas de bulbo úmido que agora ocorrem somente uma vez por ano, poderiam prevalecer entre 100 e 250 dias por ano em grande parte dos trópicos. Em outras palavras, o que são agora os dias mais opressivamente úmidos poderiam se tornar a norma. Mesmo em latitudes médias, as temperaturas máximas de bulbo úmido que agora ocorrem uma vez por ano poderiam ser alcançadas 25 a 40 dias por ano.

Para 2080, temperaturas de bulbo úmido de 32 °C poderiam ocorrer 1 ou 2 dias por ano no sudeste dos Estados Unidos, e 3 a 5 dias por ano em partes da América do Sul, África, Índia e China. Em geral, por volta de 2070, o mundo poderia ver 750 milhões de pessoas ao dia expostas a essas condições em um cenário de emissões de carbono elevado, ou 250 milhões de pessoas ao dia expostas se as emissões de carbono forem moderadas.

A uma temperatura de bulbo úmido de 32 ° C, o trabalho físico sustentado torna-se impossível. Temperaturas de bulbo úmido que excedem a temperatura corporal, cerca de 35º C, podem ser perigosas até mesmo quando a pessoa está em repouso. Pelo menos, é o que os pesquisadores acreditam  – não sabemos realmente o que acontece com as pessoas em tais condições, pois elas são muito raras no clima atual.

Porém, em um cenário de altas emissões, os pesquisadores calcularam, poderia haver mais de 1 milhão de pessoas ao dia expostas a temperaturas de bulbo úmido de 35 °C em 2070.

Felizmente, se as emissões são baixas ou moderadas, as temperaturas de bulbo úmido de 35º C provavelmente permanecerão raras.

Ainda assim, “muitas pessoas desmoronariam antes de atingir temperaturas de bulbo úmido de 32º C, ou qualquer situação próxima a isto,” estuda o coautor Radley Horton, um pesquisador do clima em Lamont-Doherty, disse em uma press release. Ondas de calor recentes nas quais temperaturas atingiram 29 a 31º C causaram dezenas de milhares de mortes.

“Nas próximas décadas, o stress térmico pode resultar em um dos aspectos mais amplamente sentidos e diretamente perigosos,” pesquisadores escrevem. Eles chamam stress térmico “um fator de risco potencialmente transformador para os seres humanos”. O fardo será mais pesado em regiões onde muitas pessoas trabalham fora e não têm acesso a ar condicionado, água potável e tratamento médico.

Enquanto isso, esta semana na Austrália –que com boa infraestrutura e muita experiência com ondas de calor a torna uma das regiões mais resilientes do globo – o calor extremo enviou um capitão da equipe de críquete para o hospital, e aparentemente matou pelo menos 200 raposas voadoras, uma espécie de morcego. Como cada vez mais parece ser o caso, o risco transformador para os seres humanos – e para a vida selvagem – já está aqui.

Fontes:

  1. Li J. et al. “Elevated increases in human-perceived temperature under climate warming” Nature Climate Change. 2018.
  2. Coffel E.D. et al. “Temperature and humidity based projections of a rapid rise in global heat stress exposure during the 21st century.” Environmental Research Letters. 2017.
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