Temos de falar sobre as formas mais eficazes de reduzir a nossa Pegada de Carbono

Os livros escolares de ciência e documentos oficiais actuais sobre as alterações climáticas promovem estratégias relativamente ineficazes para as pessoas reduzirem a sua Pegada de Carbono pessoal, de acordo com uma análise publicada na semana passada na revista Environmental Research Letters. Além disso, estas fontes evitam, na grande maioria, a discussão sobre as alterações que realmente fariam a diferença na redução das emissões.

Actualmente, o cidadão médio que vive nos Estados Unidos é responsável por emissões de gases de estufa equivalentes a 16,4 toneladas de CO2 por ano. As emissões anuais per capita são equivalentes a 16,3 toneladas de CO2 na Austrália, 13,5 toneladas no Canadá e 6,7 toneladas na União Europeia. Para manter o aumento médio global de temperatura abaixo dos 2 °C, as emissões anuais per capita têm de cair, até 2050, para valores equivalentes a 2,1 toneladas de CO2.

Seth Wynes e Kimberly A. Nicholas, da Universidade de Lund na Suécia, compilaram as sugestões de redução de emissões feitas nos livros de texto Canadianos, bem como em publicações oficiais dos governos da Austrália, do Canadá, da União Europeia e dos Estados Unidos. Estas fontes realçam, na sua maioria, acções de baixo e médio impacto que reduzem a Pegada de Carbono de um cidadão em menos de 0,8 toneladas de CO2 por ano, tais como pendurar roupa lavada para secar em vez de utilizar uma secadora de roupa eléctrica, conduzir um veículo mais eficiente em termos de consumo de combustível, reciclar e substituir as lâmpadas utilizadas em casa por versões mais eficientes energeticamente.

Em contrapartida, quando os investigadores pesquisaram a literatura previamente publicada para determinar que acções teriam o maior impacto na redução da Pegada de Carbono de um indivíduo, eles encontraram quatro estratégias de alto impacto: consumir uma dieta à base de plantas (poupa 0,8 toneladas de CO2 por ano), evitar viagens aéreas (poupa 1,6 toneladas de CO2 por vôo transatlântico de ida e volta), viver sem carro (poupa 2,4 toneladas de CO2 por ano) e – realmente a de maior impacto – ter menos um filho (poupa 58,6 toneladas de CO2 por ano).

Os livros de texto contêm apenas 6 menções a viver sem carro e 2 a evitar as viagens aéreas. Dos documentos oficiais, apenas guias da UE e Canadá sugerem evitar as viagens aéreas e apenas a Australiana menciona o viver sem carro. Nenhuma das fontes recomenda ter menos filhos como uma estratégia para combater as alterações climáticas.

Mas o novo estudo tem os seus próprios pontos cegos. Um deles é a estratégia de “ter menos filhos”. Esta sugestão é baseada em cálculos de um estudo realizado em 2009 que atribuiu as emissões de carbono projectadas para gerações futuras a pessoas que vivem actualmente (um progenitor é responsável por metade das emissões produzidas ao longo da vida de cada filho, um quarto das emissões de cada neto e assim em diante – todas divididas pelo número de anos de vida do progenitor).

Estes cálculos geram alguns gráficos dramáticos. Mas atribuir às pessoas de hoje os “créditos” de emissões evitadas muitas décadas no futuro é profundamente enganador sobre como atingir os cortes nas emissões massivas no curto-prazo necessários para manter o controlo sobre as alterações climáticas. Por exemplo, se o cidadão médio nos Estados Unidos é responsável por 16,4 toneladas de emissões de CO2 por ano, a ideia de que ter “menos um filho” poupa 58,6 toneladas de CO2 por ano sugere que evitar procriar gera emissões de carbono negativas na ordem das 42,2 toneladas de CO2. Este enquadramento coloca o risco de desresponsabilizar pessoas com menos filhos do que a média pelas suas emissões de carbono no presente.

Um segundo aspecto enganador tem a ver com a vida nas cidades. Apesar dos investigadores reconhecerem que factores estruturais podem afectar a capacidade dos invidíduos de alterarem os seus estilos de vida, eles enquadram os seus comportamentos de alto impacto como escolhas, em grande parte, sob o controlo do indivíduo. Por exemplo, os investigadores escrevem que viver sem carro tem “o potencial de contribuir para uma mudança sistémica”, porque “reduz a necessidade de construir mais estradas e parques de estacionamento e apoia um planeamento urbano de maior densidade.”

Isto está ao contrário. Com poucas excepções, as pessoas não desistem dos seus carros e depois exigem maior densidade urbana. Elas desistem dos seus carros depois, e não antes, de haver alojamento acessível, em termos de custo, disponível em bairros compactos que são bem servidos por redes de transporte público.

Os investigadores argumentam que ao focarem-se em acções de baixo impacto que são amplamente palatáveis e relativamente fáceis de implementar, os livros de texto e publicações oficiais correm o risco de tornarem trivial o problema das alterações climáticas. Este parece ser o caso. Mas o mesmo aplica-se a ignorar barreiras estruturais à acção – faz parecer que reduzir a Pegada de Carbono de um indivíduo é uma tarefa mais fácil do que realmente é. Temos de ser honestos não só em relação às alterações comportamentais que farão a maior diferença na redução das emissões, mas também sobre o que é preciso fazer para atingirmos este objectivo.

Fonte: Wynes S and KA Nicholas. “The climate mitigation gap: education and government recommendations miss the most effective individual actions.” Environmental Research Letters2017.

 

Imagem: Ray Dumas via Flickr.
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